No Brasil, dos mais de 40 mil jogadores de base no futebol, apenas 1% se profissionaliza, segundo o FutDados.

O sonho e a ilusão

No Brasil, o futebol é visto como um atalho mágico para a ascensão social, uma forma de loteria que, quando vencida, um jovem pode não apenas mudar sua vida, mas a história de toda a sua família. Essa narrativa de superação e busca pela riqueza transformou o imaginário de milhares de brasileiros que todos os anos entram no universo deste esporte para tentar a sorte no sistema de categorias de base em busca de um contrato milionário no país ou na Europa. 

No entanto, a realidade, muitas vezes esquecida, não é essa, mas sim fria e implacável. Pois a chance de se tornar um jogador de futebol profissional no Brasil é somente 1%, de acordo com dados divulgados pelo FutDados. Essa estatística mostra como as categorias de base formam um esquema de descarte em massa, considerando que segundo o “Relatório: educação e as categorias de base” feito pela Universidade do Futebol, só em 2019, existiam cerca de 40.320 jogadores de base no país, ou seja, em média 39.917 crianças eram descartadas por esse sistema.

Mesmo esse 1% que se torna profissional acaba tendo que enfrentar uma realidade diferente da prometida a eles: a de que o futebol é um caminho para mudar de vida financeira. Pois uma pesquisa divulgada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em 2016, apontou que dos 28.203 jogadores com contratos vigentes naquele ano, 80% recebiam até R$ 1.000,00 e apenas 0,4% tinham o salário acima de R$ 100 mil.  

Além desses dados, esses jovens enfrentam outro problema: ter que lidar com o ambiente carregado de cobranças e animosidades do futebol. Um exemplo recente que ilustra isso foi a campanha “Pais de castigo” realizada pela Federação Paulista de Futebol (FPF), no último mês de setembro, após fechar os portões de 144 jogos das categorias de base Sub-11 (para menores de 11 anos) e Sub-12 (para menores de 12 anos), por conta de mau comportamento dos adultos nas arquibancadas. 

A punição foi realizada em todas as partidas da 16ª e 17ª rodadas do Campeonato Paulista das categorias. A medida foi uma decisão tomada pela FPF por recomendação do Tribunal de Justiça Desportiva (TJD-SP), devido ao aumento do número de casos de mau comportamento dos torcedores. Somente durante essas duas competições, iniciadas em junho, haviam sido registradas 46 ocorrências. Dentre esses casos estão ofensas às crianças, injúrias raciais, homofobia, além de brigas, ameaças e outros tipos de hostilidade. Boa parte desses atos é praticada pelos próprios pais, que estão nos estádios acompanhando os filhos nos jogos. 

Campanha “Pais de Castigo”, iniciativa que busca conscientizar sobre o comportamento dos adultos no futebol de base. Fonte: Federação Paulista de Futebol.

Todos esses pontos ocorrem em um sistema seletivo que se importa apenas com a formação de jovens jogadores, treinando seus aspectos técnicos, táticos e físicos, com o objetivo final de integrar o time principal ou serem transferidos para outros clubes, gerando receita. Ou seja, é um esquema, no qual a maioria de seus organizadores não possuem responsabilidade social e educacional com os atletas. Transformando a carreira deles em um jogo de “tudo ou nada”, no qual o fracasso não é somente a não conquista de um sonho, mas a perda total de identidade e perspectiva de futuro. 

Para dar rostos e vozes a esta reportagem, conversamos com alguns atletas e ex-atletas, um deles é Diego Ribeiro, ex-jogador que assim como outros milhares sonhou com uma mudança de vida graças ao futebol, mas infelizmente não conseguiu. A jornada dele será como o fio condutor, que irá direcionar esse texto e humanizará as estatísticas cruéis desse sistema que na esmagadora maioria das vezes transforma a esperança em trauma e o sonho em frustração. 

Histórias de quem não passou

Diego, ex-atleta com 37 anos, tem a história de vida parecida com milhares de jovens que tentam todos os anos a sorte de se tornarem jogadores profissionais no Brasil. Um menino de Além Paraíba, no interior de Minas Gerais, uma cidade pequena com aproximadamente 30 mil pessoas, viu o esporte como uma alternativa para mudar sua vida e de seus familiares, porém não foi esse o desfecho de sua trajetória

Com apenas 13 anos, ele começou sua carreira no Juventude, do Rio Grande do Sul, e já no início do seu caminho, Diego se tornou parte de um dos principais problemas relacionados ao sistema de categorias de base no país: o fluxo migratório de crianças no processo de formação de atletas. Com base no relatório sobre educação e categoria de base da Universidade do Futebol, por ano cerca de 13.440 jovens se deslocam de sua cidade de origem para realizar testes em clubes de outros locais, às vezes até mesmo tendo que mudar de estado como o Diego. 

Ele pontua como foi difícil sua adaptação por estar longe de casa e afastado de seus familiares, e como a carreira de atleta exige esses sacrifícios, mesmo de uma criança. “Foi muito difícil para mim, porque para se tornar atleta requer adaptação e sentir saudade da família, essas coisas influenciam muito. E acaba que muita gente não vê esse lado, e isso diferencia muito o quanto você está preparado, pois não é só estar preparado fisicamente, mas também mentalmente, o que faz muita diferença para o futebol, mas as pessoas não dão muita atenção a isso”. 

Em 2021, Arthur Sales, jornalista especializado nos direitos das crianças e adolescentes no futebol, publicou um estudo com dados obtidos de 12 clubes das séries A e B do campeonato brasileiro de futebol masculino. Nele foram coletadas informações de 1680 jogadores nascidos entre 2000 e 2012, sendo 256 menores de 14, idade na qual não é permitida que os atletas sejam alojados. A pesquisa apontou que 718 dos jogadores observados são de estados distintos dos clubes de onde atuam. 

Após um período de teste no Juventude, Diego, assim como muitos dos jogadores desta idade, sofreu com a adaptação a um novo local e acabou desistindo do clube e voltando para sua cidade. Buscando oportunidades mais próximas da sua cidade, mas ainda tendo que enfrentar o fluxo migratório rotineiro deste sistema, ele seguiu para a capital do Rio de Janeiro para ter que enfrentar mais um período de teste, agora pelo Flamengo durante 3 meses, porém foi mais uma experiência que infelizmente não teve o final esperado por ele. 

Depois de sua passagem pelo clube carioca, ainda correndo atrás de seu sonho, seguiu para outro time também do estado, só que agora na Baixada Fluminense, mais precisamente em Nova Iguaçu, o Artsul FC, atualmente Univassouras Artsul FC. Clube empresa cujo objetivo era preparar jogadores para grandes clubes, principalmente da capital. Quando chegou ao time com 15 anos, assinou um acordo onde a equipe passava a ter os direitos federativos dele. 

Durante sua passagem pelo Artsul foi emprestado ao Fluminense, onde disputou um campeonato e agradou à diretoria do clube de Xerém, mas por questões contratuais entre as equipes acabou tendo seu empréstimo cancelado e voltou para a equipe da baixada. Aos 18 anos, quando ainda jogava pelo clube da Região Metropolitana do Rio, foi emprestado ao time profissional do Kyoto Purple Sanga, clube do Japão no qual ficou por uma temporada. 

Um carrossel de fotos de Diego no Japão, mostrando momentos de sua passagem pelo Kyoto Purple Sanga, em treinos, jogos e com a torcida. Fonte: acervo pessoal.

Diego afirma que novamente foi uma situação de adaptação complicada, mas que gostou da experiência cultural e do clube. No entanto, mais uma vez em sua carreira por questões de negociações entre os clubes, viu seu sonho não se concretizar e outra vez sem saber o porquê, já que até hoje não recebeu nenhuma informação sobre a negociação entre os clubes. 

Essas duas situações de negociações ilustram bem mais um grande obstáculo presente nas categorias de base que é a comunicação entre clubes e jogadores, ou melhor dizendo, a falta dela. Essa ausência de diálogo entre as partes revela uma das faces mais perversas do futebol brasileiro, onde frequentemente esses jovens descobrem sobre negociações envolvendo seus direitos federativos através de terceiros, redes sociais ou até mesmo da imprensa. Enquanto os dirigentes tratam as carreiras deles como meras transações comerciais, deixando esses atletas em formação completamente alheios às decisões que definirão seus futuros. 

Essa lacuna comunicacional não é apenas uma falha administrativa, mas um reflexo da desvalorização do atleta como indivíduo: ele é tratado unicamente como ativo financeiro do clube, e não como um ser humano que possui sua própria trajetória. Sem acesso a informações básicas sobre propostas, valores ou até mesmo sobre a real intenção do clube em renová-lo, esses jovens vivem em constante incerteza, impedidos de planejar suas carreiras ou sequer compreender as engrenagens do sistema que os controla.

Um ponto que devemos considerar e que muitas das vezes é sucateado é a educação desses jovens, como eles fazem para conciliar estudos e a vida de atleta. Tendo como base a trajetória de Diego, com apenas 18 anos, já havia passado por cinco clubes, quatro cidades e 2 países diferentes, sem contar sua cidade natal. Ele explica como fazia para continuar estudando, mesmo tendo que se dedicar ao futebol: 

Diego explica como fazia para conciliar seus estudos com sua vida de jogador nas categorias de base.

Em 2010, Leonardo Melo, juntamente com outros colaboradores, publicaram o “Perfil educacional de atletas em formação no futebol no Estado do Rio de Janeiro”. O estudo apontou que jovens jogadores que mudam de cidades e estados para morarem em alojamentos dos clubes do Rio de Janeiro possuem mais reprovações e um maior atraso escolar quando comparados aos atletas em formação que vivem com a família, ou seja, mais uma questão que tem como base o fluxo migratório no futebol brasileiro. 

Voltando para a história de Diego, após ter tido sua ida para o futebol japonês interrompida, ele revelou que se encontrava frustrado por mais uma vez não ter conquistado seu desejo. Foi nesse momento, durante sua volta para o Brasil, que recebeu uma proposta para atuar no time profissional do Internacional, que naquele ano de 2007, era o atual campeão do mundo. No entanto, nessa mesma hora de alegria no qual tinha finalmente conquistado tudo pelo que havia batalhado toda sua vida, ele foi interrompido pelo seu primeiro problema psicológico, como ele conta: 

Diego aborda de forma aberta o momento em que teve seu primeiro problema psicológico como atleta e as consequências que isso trouxe para sua carreira.

Infelizmente, esse não é um caso isolado. Diversos atletas da base desenvolvem todos os anos quadros de ansiedade, depressão, problemas de sono e transtornos alimentares devido à pressão por resultados, especialização precoce, rotinas exaustivas e falta de suporte adequado para a saúde mental disponibilizada pelos clubes. 

Depois de sair do Internacional e estar enfrentando problemas psicológicos, Diego fala que pensou em desistir do futebol com 19 anos. Por isso ele aponta a importância da preparação mental de um atleta: 

Diego ressalta a importância de os atletas cuidarem da saúde mental, que ele considera essencial para conseguirem realizar o sonho de se tornarem profissionais.

A psicóloga Cristine Strassburger, que trabalhou durante 3 anos na psicologia do esporte no Guarani Esporte Clube, da cidade de Divinópolis, em entrevista abordou  a importância do acompanhamento psicológico desses jovens desde o início de sua carreira na base: 

Cristine pontua a relevância do acompanhamento psicológico para jovens atletas, ressaltando a importância desse suporte desde o início nas categorias de base.

Após um período de reflexão, Diego não desistiu do futebol e acabou recebendo uma proposta do Vasco da Gama, para jogar na base do clube por dois anos, o que para muitos representaria um passo para trás, ele via como uma das últimas tentativas de ir atrás do seu sonho. Depois de um ano jogando pelo time carioca, mais uma vez ele teve que enfrentar a mesma situação que já tinha passado antes, a da falta de comunicação do clube para com o atleta. 

No dia de sua reapresentação para a segunda temporada no clube ele foi informado de que deveria se reapresentar no Artsul, pois teria sido negociado para jogar no Resende Futebol Clube. Foi nesse momento que Diego decidiu colocar um ponto final em sua carreira e no sonho pelo qual teria batalhado durante toda sua vida. 

Diego conta sobre como foi o processo de tomar a decisão de desistir de seu sonho de se tornar um jogador profissional.

Nesse instante, Diego, assim como outros milhares de atletas que passam pela mesma situação, se encontrava frustrado após o fim de seu sonho. Além da frustração esses atletas neste momento têm que enfrentar mais um desafio, o de entrar no mercado de trabalho tradicional, mas sem as ferramentas básicas. A evasão escolar, incentivada pelo sistema, deixa-os sem qualificação formal, enquanto a falta de experiência fora dos gramados impede o acesso a empregos mais estáveis. O resultado é o desemprego ou a inevitável migração para os chamados “subempregos”, geralmente informais, com baixa remuneração e nenhuma garantia.

Essa realidade vai de encontro com o dado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que aponta a alta taxa de informalidade no trabalho entre jovens de 14 a 24 anos, atingindo 45% no primeiro trimestre de 2024, provando que o futebol não apenas falha em profissionalizar, mas também em preparar esses garotos para a vida adulta.

Diego relata como ele se sentia perdido após deixar o futebol e alerta sobre importância de se ter um “plano b” para que os atletas não tenham uma frustração tão grande caso seu sonho não se realize: 

Diego relata como se sentiu após abandonar o sonho de ser jogador, ressaltando a importância de um “plano b”, algo que infelizmente ele não teve.

A história de Diego não é um caso isolado de azar ou falta de talento como muitos podem pensar, mas de um sistema falho que prioriza o lucro e como consequência expõe jovens à evasão escolar e a problemas psicológicos e sociais. 

O sistema das peneiras e a falta de estrutura

O sistema de peneiras consiste em testes de avaliação e seleção de jovens talentos que os clubes de futebol promovem para suas categorias de base. O objetivo delas é identificar jogadores com potencial para serem desenvolvidos e que possam se tornar profissionais. Normalmente, dezenas e até mesmo centenas de garotos participam dessas seleções em um campo de futebol, sendo agrupados em diferentes equipes para jogar uns contra os outros, durante um ou dois dias. 

O termo “peneira” representa muito bem a essência desse processo: uma filtragem em massa, rápida e, muitas vezes, superficial. Nas quais milhares de jovens, alguns participantes dos fluxos migratórios do futebol brasileiro, vindos de longas viagens e grandes investimentos familiares, são avaliados em poucos minutos de treino. Essa metodologia é o principal indicativo de um sistema que prioriza o volume em detrimento do desenvolvimento humano gradual. 

Léo Coelho, zagueiro do Amazonas FC, em entrevista cedida a nós, quando ainda atuava pelo Peñarol do Uruguai, falou sobre como é passar por uma peneira como jogador: 

Léo compartilha sua visão sobre a dificuldade do processo de “peneira” para crianças, abordando a intensa concorrência e a pressão envolvida.

A estrutura deste sistema pode ser melhor compreendida através da metáfora do “funil”: uma base imensamente larga de aspirantes que é drasticamente afunilada em cada etapa de um processo seletivo e gradual, resultando em um número reduzido de jogadores que alcançam o sucesso profissional.

O jornalista Arthur Sales em entrevista exclusiva para nossa reportagem apontou como esse formato de identificação dos atletas para o sistema de base é um dos principais problemas do processo: 

Arthur Sales aborda como a forma de identificar talentos no sistema de peneiras é um dos maiores desafios do processo.

A principal fragilidade metodológica das peneiras está em sua subjetividade e na falta de critérios claros e definidos de avaliação. As decisões são tomadas na maioria das vezes por observadores técnicos e treinadores, cujas avaliações podem ser influenciadas por preferências pessoais ou até mesmo estilo de jogo. Esse formato não garante uma análise aprofundada das capacidades cognitivas, táticas ou da resiliência psicológica do atleta, focando exclusivamente no que é visível em um curto espaço de tempo.

A história do sistema de base no Brasil é normalmente contada por casos de exceções, um dos exemplos mais utilizados é o caso do lateral direito e capitão do Brasil na campanha do penta, Cafu. Rejeitado em mais de dez peneiras, incluindo quatro no São Paulo, clube que depois o revelou para o esporte. 

Contudo, se pararmos para analisar, ele não é um testemunho de força de vontade e de sucesso das peneiras, mas sim um exemplo contundente da ineficiência desta prática. Pois se o sistema rejeitou diversas vezes um dos jogadores mais vitoriosos da história do futebol brasileiro, quantos outros talentos de potencial similar ou mesmo superior foram perdidos para sempre, filtrados por uma peneira incapaz de reconhecer o verdadeiro potencial a longo prazo?

Mas a pergunta que fica é por que esse modelo ainda é tão utilizado no Brasil? Devido aos seus dois principais pontos favoráveis para os clubes: a possibilidade de avaliar muitos atletas ao mesmo tempo, e o baixo custo de realização. Ou seja, as peneiras sobrevivem não por ser o melhor método, mas porque é o mais barato e logisticamente mais simples para os times. 

É mais fácil  e econômico para as instituições organizar um evento de massa do que investir em uma rede de observadores qualificados, em tecnologia de análise de dados, em campi espalhados por diversos lugares do país e em programas de desenvolvimento de longo prazo, como realizado na Europa. Essas medidas não só tornariam essa captação de talentos mais justa como também diminuiriam o fluxo migratório de jovens pelo país buscando chances para conquistarem seus sonhos. 

A crítica ao sistema de peneiras e formação desses atletas no Brasil vai além da forma como é feita a seleção e entra no descaso estrutural que muitos desses clubes se encontram e com isso colocam em risco a segurança, a saúde e a dignidade desses jovens. A falta de estrutura pode ser observada em alojamentos precários, alimentação inadequada e uma fiscalização insuficiente. 

Buscando melhorar essa questão, a CBF em 2011, criou o Certificado de Clube Formado (CCF), um reconhecimento emitido pela instituição atestando que o clube cumpre com os requisitos da Lei Pelé para a devida formação técnica e social dos atletas. O documento, além de resguardar os direitos desses jovens, também garante benefícios para os clubes formadores. 

Entre os ganhos dos clubes com a certificação estão: proteção legal, contratos mais estáveis e a possibilidade de registrar oficialmente, por meio de um processo criado pela CBF, os contratos de formação feitos com os atletas; análise do valor a receber pela formação com base nos custos investidos no desenvolvimento do jogador; direito de fazer e renovar o primeiro contrato profissional de trabalho; evitar que outros times tentem levar os jogadores embora e que o atleta abandone o clube de propósito; e maior credibilidade da marca da equipe no mercado.

Explicação sobre o funcionamento do Mecanismo de Solidariedade e como ele se diferencia do Certificado de Clube Formador. Autoria: equipe Fora das Quatro Linhas.

Para obter o certificado as instituições interessadas devem apresentar a CBF a documentação exigida e preencher os requisitos necessários como: compromisso com o monitoramento e fiscalização das condutas de alimentação, educação, higiene, segurança, comprovação de participação em competições e salubridade de todas as instalações do seu Centro de Treinamento, incluindo os alojamentos. 

De acordo com dados apresentados em março deste ano, pela CBF, apenas 69 dos 850 clubes profissionais brasileiros possuem o CCF o que representa de 8,12% das equipes. Ou seja, em mais de 90% dos times não se pode ter certeza que esses atletas em formação estão recebendo cuidados básicos necessários como acesso à educação e moradia digna. Só na Copa São Paulo, maior e mais importante competição de categorias de base do Brasil, deste ano tiveram presentes 128 clubes, cerca de 46% dos times não possuíam o certificado.

Mapa de clubes com certificado de formação:

O mapa mostra onde estão os clubes brasileiros que possuem o Certificado de Clube Formador. Fonte: apuração Fora das Quatro Linhas. Autoria: equipe Fora das Quatro Linhas.

Como pode ser observado no mapa, outro ponto de atenção é o fato da maioria dos clubes que possuem o certificado estão concentrados na região Sudeste, onde os investimentos nas categorias de base são significativamente maiores em comparação com outras regiões do país. Essa centralização cria um deserto de oportunidades para jovens talentos do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, que são forçados a deixar suas casas e famílias em busca de uma chance em um centro de formação qualificado, aumentando assim um ponto já citado durante a reportagem que é o fluxo migratório de crianças e adolescentes pelo território nacional. 

No entanto, mesmo entre os clubes certificados, não há garantia plena de cumprimento de todos os requisitos, havendo registros de estruturas inadequadas em parte deles. Um dos casos mais trágicos e emblemáticos é o incêndio no Centro de Treinamento (CT) do Flamengo, em 8 de fevereiro de 2019, que vitimou dez jovens da base. 

A investigação revelou diversas falhas graves que transformaram o alojamento em uma armadilha mortal, como: a estrutura ser feita de contêineres que tinham paredes revestidas com chapas de aço e poliuretano, um material extremamente inflamável, e que possuía apenas uma saída, o que dificultava a evacuação durante a emergência. 

O local também não possuía o alvará de funcionamento do Corpo de Bombeiros e havia sido notificado pela prefeitura do Rio de Janeiro quase 30 vezes por operar sem a devida licença. Legalmente a área estava registrada apenas como estacionamento e não tinha o Habite-se, documento oficial emitido pela prefeitura garantindo que o imóvel atende a todos os requisitos de segurança, infraestrutura, salubridade e acessibilidade. 

A tragédia no Ninho do Urubu, ocorrida em um dos clubes mais ricos e poderosos do país, com um orçamento anual de R$ 700 milhões na época, demonstra que a precariedade não é um problema restrito a clubes pequenos, mas um reflexo de uma cultura de descaso sistêmico. Como alertou Alfredo Sampaio, presidente do Sindicato dos Atletas de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Saferj) em entrevista logo após o caso “No Flamengo, que é uma equipe hoje com orçamento de 700 milhões de reais e uma boa estrutura, aconteceu uma coisa dessas, imagina um clube menor do Nordeste ou do interior do Rio”. 

Após o incêndio no CT do Flamengo, o Ministério Público (MP), em vários estados, criou diversas forças-tarefa para fiscalizar as condições dos alojamentos. Embora tenha havido melhorias pontuais, o grande número de clubes espalhados pelo Brasil torna o monitoramento constante e eficaz uma tarefa quase impossível para os órgãos públicos. 

A persistência dessas condições precárias, se dá ao fato de o investimento em infraestrutura segura e de qualidade representar um custo fixo elevado para os clubes. Em um modelo de funil que descarta cerca de 99% dos seus participantes, a decisão de minimizar os gastos com a vasta maioria de jovens, vistos apenas como ativos de alta rotatividade, é a mais lógica. A negligência estrutural não é, portanto, um mero descuido, mas o resultado lógico de um sistema que trata crianças e adolescentes como cifras, e não como seres humanos com um sonho e sob tutela dos clubes.

Essa fragilidade regulatória alimenta o crescimento de outro modelo “pay-to-play”, ou pagar para jogar, utilizado por escolinhas privadas e agências de empresários, onde as famílias pagam mensalidades, taxas de viagens e até testes em clubes para que seus filhos possam treinar e participar das atividades. Diferentemente do que é estabelecido para os clubes formadores pela Lei Pelé, que devem oferecer toda a estrutura para a formação desses jovens gratuitamente. 

Embora seja uma porta de entrada no futebol para muitas crianças, eles não garantem o desenvolvimento integral garantido pelos poucos clubes com certificados, focando apenas no treinamento, sem necessariamente oferecer um caminho claro para a profissionalização. A principal crítica a esse sistema é que ele aumenta a desigualdade social no acesso ao sonho de milhares de jovens, criando uma barreira financeira para jovens talentos de famílias de baixa renda.

Impactos psicológicos e sociais

O ambiente de alta performance das categorias de base, rodeado pela incerteza e competição extrema, é considerado pelos psicólogos um campo minado para a saúde mental dos atletas. A pressão constante para ser o melhor, a ameaça quase que diária de dispensa e a convivência em alojamentos, muitas vezes sem estrutura digna, contribui para taxas elevadas de distúrbios psicológicos. 

Especialistas em diversos estudos indicam que a ocorrência de ansiedade, depressão e sintomas de burnout é significativamente maior em jovens atletas de alto rendimento do que na população em geral. Segundo uma pesquisa da PUC do Rio Grande do Sul junto ao Comitê Olímpico do Brasil (COB) realizada este ano, 41% dos atletas brasileiros de alto rendimento possuem transtornos alimentares, um reflexo visível da ausência do acompanhamento psicológico desde a base. Os dados ainda mostram que 23% dos atletas entrevistados afirmaram ter dificuldade para dormir, 14,6% possuem depressão e 13,5% sofrem de ansiedade. Em outro estudo feito pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revelou que 24% dos atletas de alto rendimento já pensaram em cometer suicídio. 

Considerando esses dados, a reprovação em uma peneira ou a dispensa de um clube torna-se para um atleta em formação – entre seus 10 a 20 anos, fase crítica do desenvolvimento psicossocial – um evento traumático. A experiência vai muito além de somente uma decepção esportiva, ela pode ser absorvida por esses jovens como um fracasso pessoal, gerando sentimentos de vergonha, incapacidade e inadequação. 

Cristine alerta que, sem o amparo adequado, essas emoções negativas podem levar a consequências para o resto da vida desses atletas, como pessimismo, perda de confiança, fadiga mental e, em casos mais graves, transtornos de ansiedade e depressão. 

Cristine destaca como a decepção esportiva, após não se tornar profissional, pode levar a diversos problemas psicológicos para os jovens atletas.

Este ponto traz à tona a importância da psicologia do esporte, que deve ser enxergada como um pilar essencial para o desenvolvimento integral de jogadores em categoria de base. No entanto, em levantamento feito pelo GE em junho do ano passado, foi apontado que 6 dos 20 clubes da Série A do Brasileirão não possuíam departamento de psicologia, mostrando a negligência dos clubes com o setor. Se a situação é precária no nível mais alto e visível do esporte, é razoável deduzir que nas categorias de base de clubes de menor porte, o suporte psicológico é ainda mais escanteado. 

A função desses departamentos não é apenas tratar possíveis problemas, mas, principalmente, atuar preventivamente, fornecendo aos jovens ferramentas para lidar com a pressão, construir resiliência, estabelecer metas, desenvolver o autoconhecimento e a autonomia. Um acompanhamento com psicólogos ajuda esses atletas em formação a entender que seu valor como ser humano não está atrelado ao seu sucesso ou fracasso no esporte. 

Essa assistência psicológica aos atletas, também ajuda esses jovens, que na grande maioria das vezes entram nesse mundo do futebol ainda crianças, a criarem uma identidade própria longe do esporte. Porque muitos deles só se enxergam como jogadores de futebol, denominada por especialistas de “identidade atlética”. Isso significa que sua autoestima, seu valor pessoal e sua visão de futuro estão quase inteiramente atrelados ao seu sucesso e permanência no esporte.

A psicóloga Cristine, falou como que a perda dessa “identidade atlética” pode afetar esses jogadores em formação quando não conseguem realizar seu sonho: 

Cristine explica como jovens atletas que não se profissionalizam podem sofrer com a perda de identidade e como isso afeta profundamente suas vidas.

A cultura do “não penso em um plano B”, onde o clube, o agente e a família vendem a ideia de que o sucesso exige o abandono de todas as outras esferas da vida, é um fator agravante, pois quando o plano A não dá certo esses jovens não sabem mais quem são. Cristine aborda os problemas que essa mentalidade pode acarretar na vida dos atletas:

Cristine aborda as sérias consequências que os atletas enfrentam por não terem um “plano b” caso não consigam se profissionalizar.

As categorias de base, como locais que reúnem crianças e adolescentes  muitas vezes longe de suas famílias e em situação de dependência total do clube, também são ambientes de alta vulnerabilidade. A ausência de políticas eficazes de prevenção e de canais de denúncia seguros abre brechas para casos de assédio moral, físico e sexual, esses abusos têm sido reportados em alguns dos principais clubes do país.  

Alguns casos recentes demonstram a gravidade desse problema. Foi divulgado em agosto desse ano, pela ESPN, que o Atlético Mineiro, em um caso ocorrido em 2023, demitiu três funcionários de seu departamento de fisioterapia após acusações de assédio sexual, moral e humilhação no ambiente de trabalho. No Corinthians, episódios semelhantes motivaram em julho deste ano a criação de uma cartilha de proteção para a base, evidenciando uma reação a problemas já existentes. 

Outro caso famoso foi um dossiê publicado pela revista Placar, em 2013, que levantou 22 casos de abuso sexual no futebol de base em um período de dois anos. Além dessas ocorrências, outras 15 foram contabilizadas durante investigações posteriores. 

A importância da implementação de um acompanhamento psicológico nas categorias de base vai muito além da melhora no desempenho esportivo, serve como uma ferramenta proativa e essencial na prevenção de casos de assédio e abusos. Promovendo a educação sobre os direitos dos atletas, limites corporais e explicando sobre o que caracteriza o assédio moral e sexual, os psicólogos capacitam esses jovens a identificar e denunciar situações de abuso sofridas por eles, quebrando a cultura do silêncio – devido ao medo de perderem a oportunidade de realizar seu sonho – que muitas vezes protege os agressores. 

Este trabalho preventivo vai além de somente com os jogadores em formação, mas também se estende a funcionários e membros da comissão técnica, mediante programas de treinamento que estabeleçam códigos de conduta visando promover uma cultura de transparência e proteção. 

Além da prevenção, a presença de um psicólogo estabelece um canal de denúncia confidencial, onde esses jovens podem se sentir seguros em um ambiente de alta vulnerabilidade. A função do departamento psicológico nesses casos é se tornar um local de confiança e neutro no clube, facilitando que as vítimas se sintam seguras para expor o que aconteceu e assim tentar tornar o clube verdadeiramente seguro para o desenvolvimento humano e esportivo desses jogadores.

A ausência desse suporte psicológico revela a principal falha desse sistema, que é a falta de uma estratégia de saída responsável para os 99% dos jogadores que não se tornam atletas profissionais. O sistema está inteiramente focado em identificar e promover o 1% dos que “dão certo”, enquanto abandona a vasta maioria no momento de maior vulnerabilidade em toda a sua vida até então. Não há políticas públicas e programas de transição, aconselhamento ou apoio para ajudar esses jovens a redefinir seus objetivos fora do universo do futebol. 

O funil das categorias de base não apenas filtra, ele descarta, sem cuidado algum, esses atletas. Pós-dispensa, esses jovens se encontram desesperados com seus sonhos desfeitos, sua saúde mental abalada e, como será discutido na próxima parte, um futuro educacional e profissional comprometido. 

A escolha de Sofia: educação vs carreira no futebol

Para a maioria dos jovens que entram no universo do futebol, a jornada exige um sacrifício fundamental: a educação. O sistema, com sua rotina exaustante de treinos, viagens e competições, faz com que a carreira esportiva funcione como uma concorrente direta à formação escolar, e não como um complemento como deveria ser. Isso mostra que os resultados educacionais deficientes não são uma consequência acidental ou um efeito colateral indesejado, mas sim uma característica do modelo de categorias de base no Brasil

Elis Diniz, atacante de 23 anos, atualmente jogando nos Estados Unidos da América (EUA) pela Brevard College, enquanto faz seu mestrado, pontuou como essa concorrência entre futebol e educação afetou sua vida: 

Eliz comenta sua experiência e fala sobre a relação entre o futebol e a educação em sua vida.

Um carrossel de fotos de Elis nos EUA, mostrando seus momentos pela Brevard College e sua experiência no futebol universitário. Fonte: acervo pessoal.

Algo sabido por todos é que a dedicação exigida para se destacar no futebol de base é imensa. A rotina desses jovens em clubes de ponta envolve horas diárias de treinamento, preparação física, sessões de fisioterapia e jogos nos fins de semana. Para muitos, especialmente para aqueles que migram de suas cidades para morar em alojamentos, conciliar essa agenda com os estudos torna-se uma tarefa árdua. E como consequência direta disso temos um alto índice de evasão escolar ou, nos melhores casos, um desempenho acadêmico negligenciado, como já mostrado ao longo da reportagem pelo estudo de Leonardo Melo. 

Outras pesquisas reforçam a ideia de Melo, como uma realizada com 186 jogadores em formação de clubes de alto nível do futebol brasileiro, onde foi apontado que pelo menos 53,2% dos atletas apresentavam defasagem escolar em relação à cronologia de idades e séries. Além deste, outro estudo focado em um clube cearense, fortalece essa percepção, ele conclui que boa parte dos atletas entrevistados apresentam um atraso ou defasagem escolar.

Ademais, uma dissertação de mestrado, que realizou uma investigação em atletas da categoria sub-20 dos clubes pernambucanos, encontrou que metade da amostra não havia concluído a educação básica e 77,8% deles não mantinham mais nenhum tipo de atividade acadêmica, abandonando completamente os estudos. 

Para se ter noção da gravidade desses números, vamos compará-los com os indicadores nacionais fornecidos pelo IBGE, que em 2024, divulgou que a taxa de escolarização para a população geral na faixa de 15 a 17 anos é de 93,4%. A diferença é gritante e mostra que o sistema de futebol de base está produzindo um subgrupo de jovens com severas desvantagens educacionais, que os coloca em uma situação socialmente preocupante, deixando-os vulneráveis e despreparados para o futuro, seja dentro ou fora do esporte.

Essa escolha de investir em uma possível carreira no futebol ou em uma educação de qualidade se tornar um dilema real, principalmente para jovens de classes sociais mais baixas, que veem o esporte como o único caminho viável para um futuro melhor. Como explica Arthur Sales, sobre o porquê muitos desses jovens preferem abandonar a educação formal: 

Arthur Sales aborda como a percepção do futebol como única via de ascensão social leva muitos jovens a desistirem dos estudos.

Como pontuado anteriormente, o futebol, no imaginário brasileiro, é um poderoso vetor de ascensão social. Ou seja, para muitos jovens pobres da periferia, o esporte não é apenas um sonho, mas a única alternativa visível à precariedade. Essa visão é reforçada pelas histórias de jogadores de origem humilde que alcançaram fama e fortuna, alimentando, assim, a crença de que o talento com a bola é um substituto para a educação formal.

Essa percepção, alinhada com o sistema educacional público brasileiro, sucateado e muitas vezes deficiente, cria um forte incentivo para que esses meninos apostem todas as suas fichas na carreira esportiva. Nesse contexto, a decisão de abandonar os estudos, não é vista pela família e comunidade como um risco, mas como um investimento necessário em um futuro melhor. 

O verdadeiro custo dessa aposta só se revela para 99% desses atletas quando não conseguem assinar um contrato profissional com algum clube. Ao serem dispensados dos clubes, geralmente no final da adolescência ou início de sua vida adulta, esses jovens se encontram em uma situação delicada. Pois eles se dedicaram durante anos ao desenvolvimento de uma habilidade específica que não tem mais aplicação prática e, ao mesmo tempo, acumularam um déficit educacional significativo. 

Muitos, sem a conclusão do ensino básico e sem qualificações para o mercado de trabalho formal, encaram um futuro incerto. O sistema que lhes prometeu um sonho e uma mudança de vida os devolve para a sociedade sem nenhuma preparação. Com todos esses pontos, a transição para o mercado de trabalho convencional é um obstáculo, o baixo nível de escolaridade, é a principal barreira pensando em um ambiente profissional cada vez mais competitivo e exigente em qualificações. Esses jovens com educação básica incompleta ou de baixa qualidade são excluídos em empregos informais, de baixa remuneração e sem perspectivas de crescimento. 

Mesmo para a minoria que consegue se profissionalizar, a carreira de futebol é de curta duração e está longe de ser a garantia de estabilidade financeira que o imaginário popular supõe. Durante a reportagem já falamos sobre como são distribuídos os salários no mundo do futebol. Porém, além disso, uma estatística da CBF, divulgada em 2017, indica que 60% dos jogadores perdem o emprego ao longo de uma temporada, devido a contratos curtos e sazonais, evidenciando a precariedade mesmo para quem atinge a posição de profissional. 

O sistema de futebol de base, ao incentivar essa troca perversa entre educação e esporte, não está apenas falhando em formar cidadãos, está ativamente contribuindo para a precarização do futuro de uma geração de jovens. Alguns casos recentes comprovam como os clubes estão envolvidos nesse esquema, um deles aconteceu em Portão – RS, onde 12 meninos, vindos de vários estados diferentes e do Paraguai, não estavam tendo acesso à educação. No caso dos atletas brasileiros, eles ficaram fora da escola por um determinado período e os paraguaios não estavam matriculados em escolas e recebiam somente fotografias dos cadernos de colegas para copiar a matéria, anulando qualquer possibilidade de aprendizado efetivo. 

Outro caso de destaque ocorreu em um grande clube da Série A, o Vasco da Gama. Nesse ocorrido, a Sétima Turma do Tribunal Superior do Trabalho condenou o clube a pagar R$ 300 mil por irregularidades na contratação de adolescentes, como: manter atletas menores de 14 anos em alojamentos precários, restringindo o contato com a família, além da não formalização de contratos de aprendizagem com jogadores de 14 a 16 anos. 

Este cenário vai contra modelos adotados em centros de excelência na Europa e nos EUA. Nesses locais, há um reconhecimento pelo sistema da importância do modelo de “dupla carreira”, no qual os atletas precisam continuar os estudos ao mesmo tempo em que treinam. 

Devido a isso, os treinos das categorias mais jovens são, por norma, agendados para o final da tarde ou noite, após o horário escolar e as viagens e torneios mais longos são realizados em períodos de férias escolares. Essa diferença de planejamento entre o Brasil e essas regiões, mostra que o conflito entre esporte e educação não é algo inevitável, mas muito pelo contrário, é uma escolha da indústria do futebol brasileiro que historicamente prefere escolher um modelo que negligencia a formação integral do indivíduo em favor da produção de atletas para o mercado. 

Nesse contexto, o sistema de formação de futebol no Brasil atrai jovens, em sua maioria de classes socioeconômicas mais baixas, com a promessa de ascensão. Exigindo deles o sacrifício da sua educação em troca de uma chance ínfima de sucesso. Ao final do processo, para a esmagadora maioria, o sistema os devolve à sociedade com ainda menos recursos do que possuíam inicialmente: menos educação, abalados psicologicamente e com anos cruciais de formação para outras carreiras perdidos. Em vez de quebrar o ciclo de pobreza, o sistema, para muitos, acaba por reforçá-lo, transformando a “fábrica de sonhos” em uma armadilha de precarização.

O modelo da educação e esporte no exterior

Para superar a crise social e educacional que as categorias de base brasileiras se encontram atualmente é necessária uma mudança urgente de um modelo que prioriza a “produção de jogadores” para um sistema que tenha como objetivo o desenvolvimento integral dos atletas. Partindo da implementação de políticas públicas de “dupla carreira”, onde os clubes priorizam medidas que integram formalmente esporte e educação. 

O conceito de “dupla carreira”, como já explicamos anteriormente na reportagem, refere-se a políticas e estruturas que permitem a um atleta conciliar sua carreira esportiva de alto rendimento com a educação ou o trabalho, garantindo seu desenvolvimento integral e preparando-o para a vida após o esporte. Esse modelo, já é testado e consolidado em diversos países do mundo.

Exemplos de sucesso não faltam, como nos EUA, o sistema da Associação Atlética Universitária Nacional (NCAA, em inglês National Collegiate Athletic Association), que une o esporte de alto rendimento e o ensino superior, com a cessão de bolsas de estudos nas universidades para os atletas. Dessa forma, garantindo que mesmo aqueles jogadores que não conseguem se tornar profissionais saiam desse sistema com um diploma. Outro modelo bem-sucedido, que pode servir como exemplo, é o da Europa,  onde academias de clubes de elite e federações nacionais possuem programas que exigem a continuidade e o bom desempenho escolar dos atletas para que eles permaneçam em projetos de formação esportiva. 

A NCAA representa uma abordagem na qual o desempenho acadêmico se encontra como um dos pré-requisitos para a participação atlética. A base desse modelo é o conceito de “estudante-atleta”, no qual a identidade de estudante é priorizada à de atleta. Sendo aplicado através de rigorosas regras de elegibilidade acadêmica que orienta todo o caminho desses jovens.  

Para estudantes internacionais, como Elis, o processo é igualmente rigoroso, no qual apresentam seus históricos acadêmicos dos últimos quatro anos em sua língua nativa e em inglês. Além disso, precisam provar que estão graduados, com diplomas ou exames finais de conclusão do curso, esses documentos são avaliados e certificados pelo NCAA Eligibility Center para garantir que os interessados se encontrem no mesmo padrão dos outros estudantes.  

Explicação sobre os requisitos necessários para que atletas brasileiros ingressem no esporte universitário dos EUA. Autoria: equipe Fora das Quatro Linhas.

No modelo americano, os atletas, mesmo quando já dentro do sistema, precisam cumprir algumas normas acadêmicas para se manterem. Como manutenção da matrícula em tempo integral, aprovação de um número mínimo de créditos em cada semestre e porcentagem do curso concluído. Por exemplo, um atleta da Divisão I deve ter completado 40% de seu curso até o final do segundo ano e 60% até o final do terceiro para permanecer elegível.

O principal indicador de sucesso  acadêmico da NCAA é a Taxa de Sucesso de Graduação (GSR, em inglês Graduation Success Rate), uma métrica criada que acompanha os estudantes-atletas por seis anos após sua matrícula. O objetivo é mostrar a eficácia do modelo em produzir atletas com diplomas. Em 2024, a taxa geral para atletas da Divisão I das universidades bateu um recorde, chegando a 91%. Quando olhamos para o basquete e futebol americano, esportes americanos que possuem a mesma pressão e visibilidade que o futebol no Brasil, os resultados se mantêm expressivos com 85% e 87% respectivamente. 

A principal força do modelo realizado pela NCAA é a capacidade de garantir que os atletas obtenham um diploma, o que para a maioria, que não seguem para o esporte profissional, torna-se o essencial para sua carreira futura, juntamente com as habilidades desenvolvidas no esporte.

O sistema também se preocupa com a transição pela qual esses atletas passam quando precisam largar o sonho de ser profissionais. Para isso, a NCAA fornece um suporte institucional por meio do “After The Game Career Center”, uma plataforma que conecta esses jovens a empregadores. Ademais, muitas universidades possuem programas próprios de inserção para esses ex-jogadores no mercado de trabalho, como  o “Auburn You” da Universidade de Auburn e o “Crimson Tide DRIVE for Success” da Universidade do Alabama, que oferecem mentoria e oportunidades de estágio.

Além de pensar no lado educacional, a NCAA também vem aumentando sua preocupação com a saúde mental desses estudantes-atletas, nos últimos anos. Para isso, a organização desenvolveu o “Mental Health Best Practices”, o qual é uma obrigação legal para todas as escolas membros. Ele exige que as instituições proporcionem um ambiente que apoie a saúde mental, garantam o acesso a recursos apropriados, realizem triagens regulares e estabeleça planos de ação claros para o encaminhamento a profissionais de saúde mental licenciados. 

Elis, com sua vivência nos dois sistemas (tanto o brasileiro quanto o americano), pontua que além desses pontos, também há diferença na questão da estrutura fornecida para os atletas em formação: 

Elis compara os modelos esportivos brasileiro e americano, mostrando que as diferenças vão além da educação e chegam à estrutura fornecida aos atletas.

Outro modelo que se diferencia do realizado no Brasil é o europeu, que opera a partir de uma filosofia de “dupla carreira”. Onde o clube de futebol profissional é a entidade central, responsável por identificar e desenvolver os atletas, proporcionando educação, que nesse sistema, diferentemente da NCAA, não é considerado um pré-requisito para o esporte, mas um componente crucial e integrado para garantir uma formação completa. 

A base para esse sistema é o documento “Diretrizes da União Europeia sobre Carreiras Duplas de Atletas”. Publicado pela primeira vez em 2012, ele serve como uma guia para os estados-membros do bloco econômico, órgãos esportivos do governo e instituições de ensino, incentivando a criação de um ambiente onde os atletas tenham as condições de treinar em alto nível e estudar ou trabalhar. Evitando, assim, que jovens talentos sejam forçados a escolher entre a carreira esportiva ou a educação, facilitando a transição para aqueles que não se tornarem profissionais e até mesmo para aqueles que atingiram essa posição, mas não conseguiram atingir a estabilidade financeira esperada. 

A Uefa, como órgão dirigente do futebol europeu, exige em seu Sistema de Licenciamento de Clubes, que todos os times participantes de suas competições garantam a todos os jogadores juvenis a possibilidade de seguir a educação escolar obrigatória conforme a legislação nacional, o que deveria ser feito com o CCF no Brasil. 

Um ótimo exemplo do modelo europeu de como a política de carreira dupla pode ser implementada nacionalmente é a Alemanha. A Federação Alemã de Futebol (DFB, em alemão Deutscher Fußball-Bund) estabeleceu um sistema baseado em dois pilares: centros de desenvolvimento de talentos liderados pela DFB e academias de base administradas pelos clubes. É obrigatório que todos os clubes da 1ª e 2ª divisão da Bundesliga operem uma academia juvenil licenciada. 

Esse licenciamento é adquirido quando os clubes comprovam que estão cumprindo diversos critérios em três áreas diferentes, são elas: Gestão, Desenvolvimento de Futebol e Apoio. Essa última inclui regras de “Educação e Carreira” e “Social e Prevenção”, garantindo o desenvolvimento dos jogadores para além do campo.

A famosa academia do FC Barcelona, La Masia, também exemplifica o modelo europeu com uma imersão total, onde o desenvolvimento esportivo, acadêmico e pessoal ocorre em um ambiente residencial altamente estruturado. A filosofia do clube é formar indivíduos completos, e não somente jogadores, por meio de uma rotina diária planejada para equilibrar todos os aspectos do desenvolvimento. 

Os jovens residentes dessas instalações acordam cedo, frequentam escolas parceiras de 8h às 14h, participam de sessões acadêmicas adicionais na parte da tarde e após isso realizam seus treinamentos de futebol. As instalações do CT, abrigam 83 atletas e são projetadas para apoiar esse amadurecimento total desses meninos, com a inclusão de salas de aula, salas de tutoria, biblioteca, áreas de lazer e uma infraestrutura esportiva de ponta. 

Esse modelo europeu vem colhendo frutos nos últimos anos, como exemplo podemos citar alguns jogadores: Rodri, ganhador da Bola de Ouro de 2024, se formou em Administração e Gestão de Empresas pela Universidade Jaume I, na Espanha; Giorgio Chiellini, jogador ídolo da Juventus se formou em Economia e Comércio em 2010 e, em 2017, enquanto ainda jogava, obteve o mestrado em Administração e Gestão de Empresas pela Universidade de Turim; outro jogador com diploma na faculdade é Romelu Lukaku o belga tem um diploma em Relações Públicas e Turismo.

Além dos modelos dominantes nos EUA e na Europa, outros países desenvolveram sistemas únicos visando oferecer a esses atletas uma integração entre o esporte e a educação. Onde, muitas vezes, o Estado exerce o papel mais importante. 

A Austrália é um desses locais que apresenta um modelo centralizado e financiado pelo governo, através do Instituto Australiano de Esporte (AIS, em inglês Australian Institute of Sport). O AIS atua como um órgão nacional para o desenvolvimento de atletas de elite em uma ampla gama de esportes, coordenando estratégias e fornecendo recursos. 

Uma das iniciativas do governo australiano foia a criação da Rede de Educação Esportiva de Elite (ESEN, em inglês Elite Sport Education Network), que estabelece parcerias formais com universidades, institutos técnicos e outros estabelecimentos de educação no país. Essas parcerias têm o objetivo de oferecer um suporte flexível a atletas categorizados, garantindo que eles possam conciliar tranquilamente seus estudos e as demandas de treinamento e competições. 

Todos esses modelos apresentam divergências entre eles, fundamentalmente em quem governa o sistema, na NCAA são as instituições educacionais, na Europa os clubes e na Austrália o Estado. Mas algo está presente em todos, o objetivo de formar esses atletas de forma integral, juntando a educação e o esporte.

Cada sistema, diferentemente do usado no Brasil, desenvolveu mecanismos distintos para apoiar o bem-estar do atleta e a transição para a vida após o esporte. Revelando não haver um modelo único superior, cada um representa um conjunto diferente de compromisso, mas com todos pensando no bem desses jovens. A escolha do sistema, portanto, dependerá de quais resultados uma nação ou federação prioriza e quais compromissos está disposta a aceitar.

Enquanto o futebol brasileiro não entender isso, continuará prejudicando esses atletas em formação e perdendo talentos para países que possam disponibilizar um modelo que seja compatível com as necessidades de formação deles. Elis é um exemplo claro dessa migração de talento, em entrevista ela relatou que se o Brasil possuísse condições de oferecer o mesmo desenvolvimento integral, que os EUA, ela não teria saído do país para buscar seu sonho em outro lugar. 

Apresentação dos modelos de formação de Palmeiras e Athletico Paranaense e das estratégias que os tornaram referências no futebol brasileiro. Autoria: equipe Fora das Quatro Linhas.

Caminhos alternativos e a realidade do pós-carreira profissional

Para a pequena parcela que supera o funil das categorias de base e assina um contrato profissional, o caminho diferentemente do que muitos pensam raramente leva ao estrelato nas grandes ligas do mundo. A realidade para a maioria é uma carreira em mercados menos visíveis, seja nas divisões inferiores do Brasil, como as séries C e D, ou em ligas de menor expressão ao redor do mundo. 

Como já pontuamos durante a reportagem, a pirâmide do futebol profissional brasileiro é muito íngreme, no qual a grande maioria dos atletas vive uma realidade de baixa remuneração e alta instabilidade. Enquanto poucos vivem a vida sonhada por muitos de receber salários astronômicos de mais de R$ 100 mil por mês.  

Muitos atletas, de times menores que disputam apenas campeonatos estaduais, possuem contratos de curta duração, cobrindo somente o período da competição, que geralmente dura de três a quatro meses. Essa condição cria a figura do “profissional amador”: um atleta que, embora tenha um contrato profissional, vive um estado de subemprego sazonal. Onde não consegue acumular patrimônio, investir em sua formação educacional ou planejar uma transição de carreira. Essa precariedade o mantém em um limbo, alimentando a expectativa de uma transferência para um clube maior, ao mesmo tempo, o que o torna extremamente vulnerável a dificuldades financeiras no futuro.

Essa esperança de transferência para um clube maior, seja brasileiro ou do exterior, é alimentada pelo fato do Brasil ser o maior exportador de jogadores de futebol do mundo. Entre 2020 e 2025, 3.020 atletas distintos que cresceram no país atuaram em ligas estrangeiras. No entanto, engana-se quem pensa que esses jogadores estão indo para as cinco principais ligas da Europa. 

A grande maioria desses brasileiros constroem suas carreiras em mercados alternativos. Portugal se destaca como o principal destino, funcionando como uma vitrine e porta de entrada para o continente europeu, contratando dezenas de jogadores a cada ano. Um deles foi Overath Breitner da Silva Medina, mais conhecido como Breitner, um ex-futebolista venezuelano naturalizado brasileiro que atuava como meio-campista. 

Breitner chegou ao Brasil aos 11 anos, onde fez sua categoria de base no Internacional até os 14 anos e depois se transferiu para o Santos, onde concluiu sua formação e se profissionalizou. No time paulista ficou de 2009 até 2014, período no qual foi emprestado por diversas vezes para: Figueirense, Criciúma, Náutico, Araxá, XV de Piracicaba e Boa Esporte. Após sua passagem pelo time do litoral paulistano voltou para a Venezuela para atuar no Mineros, no qual realizou apenas 16 jogos e, em 2015, foi para Portugal, onde teve passagens por União Madeira, Leixões e Arouca, até encerrar sua carreira em 2020. 

Outros mercados alternativos nos quais os jogadores brasileiros buscam encontrar estabilidade financeira e salários mais altos do que os oferecidos nas divisões inferiores do Brasil são as ligas de menor expressão na Europa, o mercado sul-americano, países asiáticos como Japão, Tailândia, China e Coreia do Sul, e nações do Oriente Médio.

Léo Coelho foi um desses jogadores, que aos 26 anos, após passagens por times brasileiros como: Nacional-SP, Paraná, Santos sub-23, Comercial e Portuguesa, se transferiu para um desses mercados alternativos. Ele que estava passando por um momento difícil em sua vida, no qual pensava em desistir de seu sonho para virar uber, foi quando recebeu a proposta para realizar um teste no Fénix do Uruguai.

Ele conta como foi a decisão de se mudar para um país novo em busca de viver do futebol: 

Léo Coelho relata sua decisão de mudar de país para viver seu sonho no futebol e incentiva jovens a considerarem esse passo, se necessário.

Depois de se destacar no Fénix, teve uma passagem pelo Atlético San Luis, do México, antes de retornar ao Uruguai para defender o Nacional em 2022, onde conquistou o campeonato uruguaio. Em 2023, Léo se transferiu para o Peñarol, onde também conquistou o título da liga uruguaia. Atualmente, ele atua pelo Amazonas, na série B do campeonato brasileiro.

Tanto Léo quanto Breitner conseguiram realizar seus sonhos de alcançar o futebol profissional e viver dele, por meio de mercados alternativos, que muitas vezes não são mostrados a jovens atletas em seu período de formação. 

Para os atletas que conseguem construir uma carreira profissional, o fim dela representa o início de um novo e, muitas vezes, mais difícil desafio. A transição para a vida pós-esporte, onde assim como os jovens dispensados das categorias de base, eles também enfrentam uma crise psicológica pela perda da “identidade atlética”. Além dos problemas de saúde mental, esses agora ex-atletas encontram dificuldades de reinserção no mercado de trabalho e um risco de instabilidade financeira.

A aposentadoria do esporte é frequentemente descrita por psicólogos e ex-atletas como uma “segunda morte”.  Esse termo reflete a profunda crise existencial que acompanha o fim da carreira. A reintegração no mercado de trabalho tradicional agrava essa crise, pois como já mostrado durante a reportagem, a  dedicação exclusiva ao esporte durante os anos formativos resulta em baixa escolaridade e pouca ou nenhuma experiência profissional fora dos gramados. 

Sem um diploma ou outras competências, a não ser as adquiridas no futebol, muitos ex-jogadores encontram-se despreparados para competir por empregos que ofereçam estabilidade e remuneração adequadas. Essas dificuldades, trazem consequências aos atletas como dificuldades financeiras e falência. Um estudo do National Bureau of Economic Research revelou que aproximadamente 78% dos atletas profissionais enfrentam sérias dificuldade financeiras somente três anos após a aposentadoria.

As causas por trás dessa má gestão, vista em ex-jogadores, são diversas, sendo a principal delas a falta de educação financeira, que deveria ser proporcionada pelos clubes nas categorias de base e ao longo de toda a sua carreira como profissional. Cristine, como psicóloga, pontuou sobre os motivos que levam esses atletas a complicações financeiras: 

Cristine aborda os desafios que muitos atletas enfrentam após a aposentadoria, destacando a importância do planejamento financeiro e da preparação para essa transição.

Em meio às narrativas de dificuldade que marcam o fim da carreira de muitos jogadores, a trajetória de Breitner surge como um exemplo de transição planejada e bem-sucedida. Utilizando o dinheiro acumulado durante seus anos como atleta profissional e suas habilidades adquiridas no esporte, ele empreendeu no setor que dominava. Em um espaço dedicado ao futevôlei, onde ele mesmo assumiu o papel de instrutor.

Com visão de negócio, Breitner expandiu suas operações, e o que começou como um nicho específico se transformou em um negócio diversificado. Atualmente, o espaço oferece diversas modalidades de areia, como beach tennis, vôlei e peteca, e sua estrutura também é alugada para eventos privados.

Paralelamente à sua jornada como empresário, Breitner encontrou uma solução para se precaver de uma possível crise de identidade. Em vez de abandonar o esporte de alto rendimento, ele se dedicou a uma nova modalidade, tornando-se também jogador profissional de futevôlei. Essa transição não apenas manteve viva sua identidade de atleta, mas a redefiniu, mostrando ser possível encontrar novos caminhos de realização e performance, evitando a chamada “segunda morte” que tantos ex-jogadores enfrentam.

Para Além do Campo

Durante a reportagem revelamos um padrão sistêmico de negligência educacional no futebol de base brasileiro, onde a busca pelo alto rendimento supera a preocupação com a educação. As narrativas que enaltecem o 1% dos atletas que vencem e calam os outros 99%, mascaram a falha ética de um sistema que explora a esperança e o talento de jovens, normalmente pobres, tratando-os como apenas ativos financeiros com prazo de validade. Não se importando com os sonhos destruídos, com traumas psicológicos e em como esses atletas chegam em suas vidas adultas despreparados.

A mentalidade do “não existe plano B”, tão propagada no esporte, precisa ser desmistificada, porque faz com que esses jovens sejam induzidos a acreditar que qualquer planejamento de vida fora do campo é um sinal de fraqueza ou falta de foco. 

Devido ao estado em que a base brasileira se encontra, é necessária uma transformação efetiva com uma abordagem multifacetada, com ações sendo coordenadas, por meio de parcerias entre os clubes, as federações e o poder público. Algumas das medidas possíveis e urgentes, que devem ser tomadas, são: a obrigatoriedade do CCF; a criação de uma política nacional de dupla carreira e a formação de programas de transição de carreira. A formação integral deve ser tomada como uma obrigação legal e ética e não apenas como um diferencial.

Um bom exemplo de iniciativa concreta que aponta um caminho possível, é o Projeto de Lei (PL) 4.439/2024, aprovado pela Comissão do Esporte da Câmara dos Deputados e que segue em tramitação. Ele propõe que clubes e entidades de formação sejam obrigados a oferecer programas de conscientização e preparação para a transição de carreira já nas categorias de base. A medida reconhece que a carreira esportiva é curta e incerta, e que o jovem precisa estar amparado caso não se torne profissionais. 

Embora ainda não seja uma política nacional de dupla carreira, o projeto representa um avanço importante e pode servir como referência para novos marcos legais, pressionando o sistema esportivo a assumir, por lei, a responsabilidade educativa e social que historicamente negligencia.

A transformação desse cenário também passa pela aplicação mais rigorosa do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Ele é a principal ferramenta jurídica no ampliamento do debate sobre como jovens no esporte não são atletas de alto rendimento, mas sim crianças ou adolescentes em formação, e que isso deve se sobrepor a qualquer interesse competitivo ou econômico do clube, família ou agente. Além do ECA, movimentos sociais são igualmente importantes para promover a pressão na mídia para manter o debate vivo e exigir a responsabilização dos clubes.  

É hora de exigir que o jogo seja justo, não apenas dentro das quatro linhas, mas principalmente na garantia de um futuro digno para os milhares de Diegos. Que são dispensados das categorias de base, com uma educação deficiente e com diversos transtornos psicológicos, sem uma transição correta para a vida pós-esporte, o que os transforma em adultos despreparados, deixados à margem da sociedade. 

Procuramos o Univassouras Artsul, clube que propõe unir formação esportiva e desenvolvimento acadêmico, além de agentes e empresários do futebol, para ouvir suas visões e ampliar este debate. A equipe do Fora das Quatro Linhas deixou diferentes horários e formatos disponíveis, mas, mesmo após algumas sinalizações, as entrevistas não foram confirmadas pelos convidados e, por isso, não aconteceram até o fechamento da reportagem.


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FRASE DA SEMANA:

O futebol é um jogo que permite ver como a sociedade brasileira lida com regras, hierarquias e exceções.”

~ Roberto da Mata