A Explosão das Bets no Brasil
O futebol, há muito tempo, é a paixão que move o Brasil, um símbolo cultural que vai além do esporte e cria raízes na identidade nacional. Mas, nos últimos anos, um novo tipo de jogo tomou conta dos estádios, dos campeonatos, dos programas esportivos e das telas de celular, injetando bilhões em uma indústria que antes operava de forma clandestina: as apostas esportivas online.
Esse mercado, que por muito tempo operou nas sombras, atualmente utiliza plataformas, que permitem aos usuários apostarem seu dinheiro no resultado de diversos eventos esportivos, como partidas de futebol, basquete, vôlei e até mesmo e-sports. Esse sistema oferece aos apostadores uma variedade enorme de opções de escolha, desde dar palpites no resultado final de um jogo ou em eventos específicos durante a partida, como o número de escanteios, cartões ou até mesmo quem fará o próximo gol.
Nos últimos anos o setor de apostas online teve uma ascensão meteórica, de acordo com dados da Datahub, divulgados pela CNN, entre 2021 e abril de 2024, houve um crescimento de 734,6%. O que ocasionou uma movimentação de aproximadamente R$ 30 bilhões por mês em bets entre janeiro e março de 2025, afirmado pelo secretário-executivo do Banco Central (BC), Rogério Lucca, durante a Comissão Parlamentar de Inquérito das Bets do Senado Federal. Caso essa média de valor se mantenha, as casas de aposta movimentarão cerca de R$ 360 bilhões somente este ano.

Todo esse crescimento, em uma velocidade assustadora, foi impulsionado por uma publicidade avassaladora, que bombardeia o consumidor em todos os canais e meios de comunicação possíveis. Desde as cores vibrantes dos anúncios até os jargões usados por essas empresas de “oportunidade única”, “ganho rápido” e “renda extra” criam a percepção de que apostar não é um risco, mas uma extensão inofensiva da própria paixão pelo futebol.
Essa visão ganha ainda mais força quando paramos para observar que todos os clubes do Brasileirão Série A possuem patrocínios de casas de apostas, sendo que em 90% deles as bets ocupam o lugar de patrocinador master, tendo a logo estampada no centro do uniforme em posição de destaque.

Além dos times, os próprios campeonatos possuem parcerias com essas empresas, um exemplo foi a aquisição do naming rights das competiçãos, uma forma de patrocínio em que uma empresa adquire o direito de nomear um espaço, evento ou até mesmo uma equipe por um determinado período. Neste caso, a casa de apostas Betano adquiriu o naming rights das duas principais competições brasileiras, que agora se chamam: Brasileirão Betano e Copa Betano do Brasil.
Os patrocínios multimilionários se tornaram a regra, como no acordo firmado entre o Flamengo e a Betano, que fecharam um contrato de patrocinadora master com previsão de que o clube receba R$ 895 milhões em 40 meses, cerca de R$ 268,5 milhões por temporada. O dinheiro das apostas sustenta grande parte da economia dos clubes atualmente, criando uma dependência perigosa e, por vezes, cega. Fazendo com que o que antes era uma aposta marginal, agora seja um ato de consumo de massa, um novo pilar da economia do esporte.
Por trás de todos esses bilhões movimentados e das promessas de um entretenimento inofensivo, a realidade se manifesta de uma forma completamente diferente com diversos escândalos de manipulação de resultados e incontáveis histórias de pessoas que tiveram suas vidas afetadas através de prejuízos financeiros e vícios. O verdadeiro custo desse crescimento desenfreado.
A reportagem agora desvia o olhar dos holofotes e dos balanços financeiros para o rosto de quem sente na pele as consequências mais duras e invisíveis do jogo. O que a estatística não consegue capturar, a experiência de uma única pessoa pode ilustrar. É nesse ponto que a jornada de Alessandra – nome que daremos para nossa fonte que preferiu não se identificar para permanecer no anonimato, ponto primordial para os Jogadores Anônimos (JA) – se torna a face humana desse fenômeno, representando as milhares de pessoas que buscam ajuda em grupos como o, JA.
Comunidade essa que não parou de crescer nos últimos anos devido à explosão das bets, cujos membros compartilham suas experiências, com o objetivo de parar de jogar, manter-se abstinente e ajudar outros jogadores compulsivos a fazerem o mesmo.
O rosto por trás dos números – a história de Alessandra
Durante um evento em abril deste ano, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) divulgou que quase 11 milhões de brasileiros com mais de 14 anos possuem problemas emocionais, familiares, financeiros ou profissionais causados por jogos. O estudo foi realizado com base num levantamento feito com uma amostra representativa da população brasileira.
Esse número vai ao encontro dos dados divulgados pelo Senado Federal, que afirma que a ludopatia, doença mental caracterizada pela compulsão incontrolável por jogos e apostas, mesmo quando isso causa prejuízos à vida pessoal, financeira ou social, é o terceiro vício mais frequente no Brasil, ficando atrás apenas do álcool e do cigarro. Atingindo cerca de 3 milhões de pessoas e uma delas é Alessandra, de 49 anos, moradora de Palmas, no Tocantins, viciada nos jogos de slots presentes nas bets.
Por trás dos números frios e dos lucros estratosféricos, existem histórias como a de Alessandra, uma jogadora em recuperação que, durante a reportagem, representará e dará voz às muitas vítimas das casas de apostas na sociedade brasileira.
Como muitos dos afetados por esse mercado, sua jornada começou por indicações de pessoas próximas como uma forma de brincadeira inocente e uma promessa de ganho fácil, no seu caso, suas filhas que foram as incentivadoras:
Alessandra relata que começou a jogar com pequenas quantias, no valor de R$ 20. No início o jogo era uma forma de descansar a mente e relaxar após um dia que tivesse sido estressante em seu trabalho de professora. No começo não tinha o intuito de ganhar, “Era minha válvula de escape, era um momento prazeroso, jogava e relaxava depois de um dia de trabalho”, ela relata.
Quando começou a ganhar, Alessandra conta que deixou de ser um momento relaxante e passou a ser um momento diário, no qual muitas vezes fazia com que ela perdesse noites de sono jogando. Nesse momento ela não sabia, mas havia acabado de entrar para uma das estatísticas divulgada pela Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) de que cerca de 13% dos usuários jogam diariamente e 51% fazem ao menos 1 aposta na semana.
Ela pontua que teve um momento, durante essa época em que jogava diariamente, no qual apostava visando fazer coisas do seu dia a dia, pois não queria usar o seu salário. Como exemplo, ela cita que se queria fazer as unhas ou o cabelo, mesmo tendo o dinheiro, jogava para não precisar tirar o valor da sua renda fixa:
No entanto, esse mercado não foi feito para vitórias dos apostadores, uma coisa que fica bem clara quando olhamos para os números divulgados pelo estudo macroeconômico realizado pelo banco Itaú em 2024. A pesquisa mostrou uma projeção de até R$ 20 bilhões de lucro anual estimado para as bets no Brasil, após o pagamento dos prêmios aos jogadores. Do outro lado, a projeção era de R$ 23 bilhões de prejuízo para os apostadores.
Esse prejuízo inevitável para a maioria dos apostadores também chegou a Alessandra e, como ela mesma diz, as apostas são fases: “São duas grandes fases, a primeira do ganho e a segunda da recuperação”. Foi quando chegou na sua segunda fase que ela percebeu que sua vida antes considerada saudável financeiramente já não estava mais nesse patamar, ela já tinha começado a usar seus cartões de crédito para jogar e tentar recuperar seu dinheiro perdido, mas foi nesse momento que estourou o limite de seus cartões.
Assim como Alessandra, 63% de quem aposta online no Brasil afirma que teve parte da sua renda comprometida de acordo com a SBVC. A instituição também pontuou que 19% dos apostadores deixaram de fazer compras em supermercados e 11% de cuidar da saúde.
Juntamente com sua vida financeira, a sua vida pessoal também foi afetada pelas casas de aposta. Suas filhas, que foram as primeiras incentivadoras para entrar nesse mundo, tentaram avisar que ela estava com problemas com o jogo, mas Alessandra se recusou a aceitar e elas acabaram se afastando. Nesse momento ela teve sua família dividida graças aos jogos:
Foi nesse momento no qual Alessandra relata que estava no fundo do poço sem dinheiro, com sua família destruída, não conseguindo ficar nem quatro horas sem jogar e com um vazio existencial, que foi buscar ajuda. “O jogo roubou o brilho da minha vida”, pontua ela. Em sua procura por auxílio, ela encontrou o JA, após 8 meses jogando compulsivamente:
Após começar a frequentar o JA, Alessandra afirma que vem enfrentando uma batalha diária com sua doença e até mesmo com o preconceito que a acompanha. Segundo ela, esse tipo de julgamento pode vir de qualquer lugar, no seu caso de seu esposo e de uma de suas filhas. No dia de sua entrevista, Alessandra já estava há 40 dias sem jogar.
Infelizmente, muitos desses quase 3 milhões de ludopatas existentes no Brasil não tem o mesmo final de Alessandra de conseguir buscar ajuda. Estudos recentes da Unifesp e da Universidade de São Paulo (USP), que investigam os impactos do vício em apostas, apontam um aumento expressivo nos casos de ansiedade, depressão e ideação suicida entre jogadores. E um estudo publicado em 2024 pela revista Psychological Bulletin apontou que um em cada três apostadores pensa ao menos uma vez em se matar e um em cada oito realiza uma tentativa.
Os dados trazidos até o momento e a entrevista com a Alessandra, mostram como uma relação que inicialmente é apenas entre o futebol e as casas de apostas, virou um problema de saúde pública. Devido ao fato de o futebol no Brasil, como diria Roberto DaMatta ser uma arena onde se dramatizam muitas das injustiças e desigualdades sociais que enfrentamos.
Se você passa por um problema parecido com o da Alessandra – ou conhece alguém -, busque ajuda do JA entrando em contato pelo WhatsApp em: (11) 99571-6942 ou (21) 99750-3174.
O mecanismo por trás do vício
Após vivenciarmos a jornada de Alessandra, que mostra como a aposta online pode se tornar um refúgio em dias estressantes e, ao mesmo tempo, uma armadilha, é preciso ir além da superfície e entender o que acontece no cérebro de um apostador. Entender que a transição de um entretenimento para um vício não é fruto apenas do azar, mas a consequência direta de uma engenharia de risco que se aproveita dos mecanismos biológicos do nosso corpo. As plataformas de apostas não vendem somente um jogo, mas sim uma experiência que se conecta diretamente ao nosso sistema de recompensa cerebral, o mesmo que é ativado por drogas e outras formas de dependência.
Para entender o que acontece na mente de um apostador, a reportagem conversou com o neurocientista Bruno Resende, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em neurociências. Ele pontuou como as bets se aproveitaram do futebol, “As casas de aposta tiraram proveito de uma vulnerabilidade e de um fator que já traz prazer e que já possui um valor afetivo para o brasileiro, o esporte. As bets pegaram carona em cima do amor que o brasileiro tem pelo futebol”.
Além de terem se aproveitado do futebol, as casas de aposta, souberam utilizar o grande motor por trás das compulsões humanas, a dopamina. Um neurotransmissor que atua no sistema de recompensa do cérebro, liberando a sensação de prazer e euforia. Durante as apostas, a dopamina é ativada em vários momentos: ao escolher o palpite, ao acompanhar o lance e, principalmente, ao receber o resultado, seja ele positivo ou um “quase ganho”.

Esse “quase” é o verdadeiro truque por trás do vício. Estudos de neuroimagens, realizados pelo neurocientista Luke Clark, da Universidade de Cambridge, mostram que, quando um apostador perde por pouco, o cérebro reage de uma forma muito semelhante a um ganho real. Fazendo com que a frustração de uma perda seja rapidamente substituída pela euforia da quase vitória, o que faz com que o apostador continue a arriscar.
A explicação para esse efeito está no fato de a liberação de dopamina ser quase tão intensa nesses momentos quanto em uma vitória. Essa experiência aumenta a sensação de controle sobre o jogo e estimula o apostador a continuar jogando e aumentando o valor investido mesmo diante de perdas consecutivas, na esperança de finalmente alcançar a vitória.
As plataformas são repletas de gatilhos sensoriais que agem no cérebro da mesma forma que um caça-níquel. Sons de vitória, animações coloridas, gráficos dinâmicos e notificações constantes são projetados para liberar picos de dopamina. Esse apelo visual possibilita minimizar a aversão que esse mercado pode gerar em certas pessoas, como explica Bruno:
Além dos apelos visuais, Bruno também pontua como as bets utilizaram a publicidade no futebol como uma forma de criar uma valência positiva sobre as apostas:
Esses apelos visuais e as propagandas em massa podem fazer com que pessoas predispostas geneticamente desenvolvam uma dependência dessas apostas, devido a um ambiente que se torna favorável para esse comportamento. Essa predisposição genética se dá quando um indivíduo apresenta uma variação nos genes que afeta a quantidade de dopamina produzida pelo cérebro e como os seus receptores funcionam.
Impulsionado pelas propagandas em abundância e pela geração das valências positivas das bets, outro ponto que tem que ser observado é a interação desse mercado com o público jovem. Uma pesquisa divulgada neste ano, pelo Governo revelou que 22,4% dos apostadores são jovens de 18 a 25 anos, sendo o segundo maior público, ficando atrás somente do grupo de 31 a 40 anos com 27,8%. Durante essa faixa etária, as pessoas são mais suscetíveis ao vício em jogos, por ser o período onde o córtex pré-frontal, área do cérebro responsável pelo controle de impulsos e pela tomada de decisões racionais, ainda está em pleno desenvolvimento. Ao mesmo tempo, o sistema de recompensa, impulsionado pela dopamina, é extremamente sensível.
Essa combinação faz com que jovens tendam a buscar mais riscos e prazeres imediatos, tornando-os alvos perfeitos para as táticas de apostas. A exposição a plataformas que oferecem gratificação instantânea pode criar um ciclo de busca e dependência muito mais rapidamente do que em adultos.
Para combater essa questão das bets, que ao longo da reportagem está ficando cada vez mais clara que deixou de ser apenas uma relação com o futebol e virou uma relação social e de saúde pública, a conscientização e a adoção de medidas abrangentes são essenciais. Ao nível individual, o caminho mais urgente é a busca por ajuda especializada, seja por meio de psicoterapeutas ou com tratamentos farmacológicos, para aqueles que já enfrentam o vício.
Em uma abordagem coletiva, a solução se baseia em três pilares fundamentais: a limitação da exposição a propagandas agressivas das casas de apostas, a criação de impostos sobre as bets com a finalidade de financiar o tratamento de dependentes. E, por fim, a popularização de outras formas de lazer e prazer, como atividades culturais e esportivas, que sirvam como alternativas saudáveis e acessíveis, diminuindo a probabilidade de que indivíduos busquem no jogo a única fonte de distração e diversão.
Se, no nível individual, o cérebro é fisgado pelo ciclo da dopamina, no coletivo, outro mecanismo de sedução se manifesta: a promessa de lucro fácil, que não afeta apenas apostadores, mas também quem está dentro das quatro linhas. Historicamente, a busca por lucro ilícito sempre caminhou lado a lado com a paixão pelo jogo.
Histórico de esquemas de manipulação
No entanto, o advento da tecnologia e a globalização das plataformas de apostas trouxeram uma nova dimensão a essa prática, tornando os esquemas mais sofisticados e difíceis de rastrear. A lógica por trás disso é simples, mas poderosa: para quem aposta grandes somas, ter controle sobre o resultado de um evento, por menor que seja, garante um retorno financeiro certo e exponencial.
O histórico de manipulações em apostas esportivas mostra que o problema vai além das perdas pessoais. Árbitros, dirigentes e jogadores já foram envolvidos em esquemas milionários que transformaram partidas em negócios fraudulentos. A cada escândalo revelado, cresce a percepção de que o vício do torcedor e a corrupção do sistema são faces de uma mesma engrenagem movida pelo dinheiro das bets.
Como dito, esses casos de manipulações não são novidades do mundo do esporte, no Brasil um dos primeiros grandes escândalos foi a Máfia da Lotérica, em 1982, um esquema que envolveu jogadores, dirigentes e quadrilhas de todo o país. O plano dos envolvidos era fraudar os resultados da Loteria Esportiva, um dos grandes responsáveis pelo financiamento do futebol nacional na época. A fraude acontecia por meio de subornos a jogadores de times de menor expressão visando garantir resultados específicos, como a vitória de um time grande ou o empate, permitindo que os criminosos acertassem os bilhetes da loteria e embolsassem o prêmio máximo. O escândalo revelou a fragilidade do sistema e abalou a credibilidade da Loteria Esportiva.
Após 23 anos, outro escândalo marcou o futebol brasileiro, a Máfia do Apito, em 2005, ao envolver diretamente a arbitragem. A manipulação foi liderada por um grupo de árbitros, com destaque para Edilson Pereira de Carvalho e Paulo José Danelon, que receberam propina de empresários para influenciar os resultados de partidas do Campeonato Brasileiro Série A e B, beneficiando apostadores ilegais.
As investigações revelaram que os árbitros manipularam jogos com marcação de pênaltis e expulsões. O incidente resultou na anulação de 11 partidas do campeonato na primeira divisão, que foram remarcadas, causando uma reviravolta na classificação, tornando o Corinthians campeão daquele ano, três pontos a frente do segundo colocado, que na oportunidade foi o Internacional. Caso os resultados originais tivessem sido mantidos, o clube gaúcho teria vencido o Brasileirão com um ponto a mais que o time paulista.
Os esquemas de manipulação não são exclusivos do Brasil, mas infelizmente é um mal que acontece em todo o mundo, alguns dos casos internacionais mais famosos são: o Calciopoli, em 2006, um dos maiores escândalos da história, abalou o futebol italiano e revelou uma fraude que envolvia dirigentes de grandes clubes, árbitros e membros da Federação Italiana de Futebol. Os clubes, em principal a Juventus, foram acusados de influenciar a escolha de árbitros para partidas importantes e de coordenar manipulação de resultados garantindo vantagens em campo. As investigações levaram às punições severas dos clubes envolvidos, em especial a Juventus, que foi rebaixada para a segunda divisão e perdeu os títulos nacionais de 2005 e 2006.
Outro escândalo internacional marcante foi a Operação Soccer Gambling (Soga), em 2013, uma operação em conjunto da Fifa com a Interpol com o objetivo de combater uma rede internacional de manipulação de resultados, evidenciando a dimensão global do problema. A ação investigou esquemas em vários países da Europa, África e Ásia, no qual criminosos operavam em escalas massivas, manipulando centenas de partidas de futebol para lucrar com apostas ilegais. A Soga resultou no fechamento de cerca de mil casas de apostas ilegais, na prisão de mais de sete mil pessoas e na identificação de mais de 380 partidas manipuladas.
Com a evolução das casas de apostas, a manipulação atualmente não se limita apenas ao placar final da partida, chamado match-fixing, mas se estende a detalhes que passam despercebidos aos olhos do torcedor, mas que são crucias para as apostas. Como faltas forçadas, cartões amarelos ou vermelhos inesperados, escanteios em momentos-chave ou a quantidade exata de gols em um período do jogo, os denominados spot-fixing, ou seja, a manipulação de um lance específico. Com o crescimento vertiginoso do mercado de apostas, que movimenta bilhões de dólares globalmente, a tentação por esses esquemas se intensificou, criando um terreno fértil para que o crime organizado e grupos de má-fé se infiltrem no esporte.
Esse tipo de manipulação resultou no escândalo mais recente no Brasil, a Operação Penalidade Máxima, em 2023, diferente dos casos anteriores, esse não tinha como objetivo alterar o resultado da partida, mas sim um lance em específico, tornando assim a fraude mais discreta e difícil de ser detectada.
As investigações foram iniciadas pelo Ministério Público de Goiás em 2022, e revelaram uma rede de apostadores que aliciavam jogadores de diversas divisões do futebol brasileiro, para que os atletas cometessem ações que eram objeto de aposta nas plataformas online. A operação resultou em punições para 22 jogadores, entre eles se destacam: Eduardo Bauermann, zagueiro do Santos na época, foi um dos primeiros nomes de destaque a serem punidos, inicialmente teve uma suspensão de 360 dias, mas acabou sendo absolvido em uma das fases do julgamento, embora tenha confessado a participação no esquema.
Outro jogador punido foi Alef Manga, atacante do Coritiba, suspenso por 360 dias por aceitar o dinheiro e por não ter denunciado o esquema, mas já cumpriu a pena e foi reintegrado ao seu clube. Além deles, duas punições que se destacam são as de: Nino Paraíba, suspenso por 720 dias, e Gabriel Tota, banido definitivamente do futebol.
Tabela com todos os 22 punidos na Operação Penalidade Máxima:


Até o momento, não houve prisão de nenhum dos jogadores envolvidos, já que as punições foram, em sua maioria, de caráter esportivo. No entanto, os apostadores e os líderes do esquema criminoso, como Bruno Lopez de Moura, foram presos e respondem na Justiça Comum por crimes como organização criminosa e corrupção privada.
O esquema demonstra a evolução da manipulação de resultados com o advento das apostas online. Antigamente, a manipulação envolvia a alteração do placar final, o que era mais perceptível. Com o spot-fixing, os fraudadores podem lucrar sem levantar suspeitas, já que o resultado do jogo não é comprometido.
Mapa de Casos de Manipulação do Futebol no mundo:
O mapa ilustrando alguns dos casos de manipulação mais famosos que ocorreram no futebol mundial. Fonte: apuração Fora das Quatro Linhas. Autoria: equipe Fora das Quatro Linhas.
A Justiça Desportiva e a Prevenção
A explosão das apostas online e os últimos casos de manipulação de resultados, como a Operação Penalidade Máxima, colocou um holofote sobre um pilar essencial, mas pouco conhecido, do futebol brasileiro: a Justiça Desportiva, sistema jurídico autônomo e independente da Justiça Comum, criado para julgar e punir infrações relacionadas ao esporte. Sua função é garantir a disciplina, a ética e a integridade das competições.
O principal órgão responsável por fazer valer as regras da Justiça Desportiva é o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), que tem a função de julgar e punir infrações esportivas, atuando como a última instância para a maioria das decisões de grande impacto.
À frente do Ministério Público Desportivo do STJD, o procurador-geral Paulo Emílio Dantas se tornou uma das vozes mais importantes no debate sobre a integridade do esporte. Em entrevista exclusiva, ele explica sua função na procuradoria para garantir um esporte ético e íntegro:
Com o crescimento das bets nos últimos anos, o STJD teve que se preparar para enfrentar os crimes de manipulação de resultados, devido à sua maior complexidade pelo fato de ser uma prática realizada às ocultas. Além dessa dificuldade, temos que levar em consideração que o tribunal possui limitações para realizar investigações, dependendo assim de informações externas para iniciar um processo.
Isso significa que ele não pode, por conta própria, realizar operações para quebrar sigilos bancários e telefônicos, ou usar outras ferramentas investigativas para encontrar provas de manipulação. A Justiça Desportiva, portanto, fica de mãos atadas até que um caso seja levado a ela por órgãos como o Ministério Público (MP), a Polícia Civil (PC) ou a própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Devido a todos esses obstáculos, o STJD se preparou para a ascensão das casas de apostas, firmando parcerias com instituições com poderes de persecução penal, para auxiliar e agilizar o processo de investigação. Também foram firmadas alianças com empresas que utilizam tecnologias de inteligência artificial para fazerem análise do mercado de apostas e dos eventos que ocorrem durante a partida, visando identificar possíveis distorções no mercado, o que pode ser um indicativo de manipulação. Importante ressaltar que nem todas as distorções são consideradas manipulações, no entanto, toda manipulação causa uma alteração no mercado, como ressalta Paulo:
Uma dessas empresas, Sportradar, considerada a principal desse setor, monitora mercados de apostas em todo o mundo com seu Sistema de Detecção de Fraudes (FDS), usando algoritmos complexos para analisar grandes volumes de dados de apostas em tempo real. Ele procura por padrões incomuns, como um volume de apostas atípicas em um resultado improvável, que podem indicar uma possível manipulação de um evento, como um pênalti ou um cartão amarelo.
Além da distorção do mercado, outro ponto comumente analisado em possíveis casos de manipulação é uma avaliação desportiva do lance em questão, visando verificar se houve alguma conduta que foge da expectativa da jogada, considerando os jogadores e os árbitros envolvidos. Servindo assim como uma forma de reforçar ou não a alteração no mercado percebida anteriormente. Vale pontuar que somente esses dois pontos não são suficientes para nenhum indivíduo ser denunciado ou condenado, mas já é possível obter uma reunião de elementos suficientes para ligar um sinal de alerta à espera da investigação policial em curso.
Ainda pensando nas dificuldades encontradas pela Justiça Desportiva em casos de manipulação, um ponto a ser destacado é que a última atualização do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD), conjunto de normas que disciplinam a conduta de todas as pessoas e entidades envolvidas na prática desportiva no Brasil, foi em 2009. Tornando a redação sobre esse tipo de crime deficiente devido à evolução do mercado de apostas durante esse período. O procurador-geral do STJD, explica como esse fato prejudica o tribunal no processo de julgamento dessas fraudes:
Inquestionavelmente, como já vem sendo mostrado durante a reportagem, as casas de apostas sustentam o ecossistema do futebol atualmente patrocinando: times, campeonatos, jogadores e até mesmo as transmissões esportivas. Devido a isso, elas têm a obrigação legal de atuar em conformidade com a lei, como também, estabelecer regras de governança que colaborem com a investigação de todos os ilícitos relacionados ao ambiente do mercado de apostas. No entanto, não é isso que vem sendo observado em todos os casos, como salienta Paulo Emílio:
Levando em consideração a complexidade dos crimes de manipulação, a necessidade de cooperação do STJD com outras instituições e como dito pelo procurador-geral a falta de colaboração das bets em determinadas ocasiões, tudo isso faz com que o processo judicial desses delitos torna-se mais lento que o normal. Geralmente as infrações que dependem exclusivamente do tribunal demoram em média 57 dias, segundo Paulo Emílio, em virtude da Constituição Federal estipular um prazo máximo de 60 dias para tais circunstâncias.
Como forma de diminuir esses casos e preveni-los, a Justiça Desportiva, vem trabalhando por meio de ações pedagógicas realizadas, em parceria com a CBF e as federações estaduais de futebol. Esses eventos, muitas vezes presenciais, servem como uma forma de conscientização e compartilhamento de informações com atletas locais e principalmente da base, mostrando para esses jovens que a manipulação pode acabar com suas carreiras.
O procurador-geral do STJD, falou como ele acredita que essas ações são mais importantes do que as punições em si: “Eu acredito que o impacto desse trabalho (de prevenção) é maior para o futebol, do que as ações depois do fato ocorrido”. Lógico que as punições também possuem uma função pedagógica e não apenas sancionatória, tanto que de acordo com relatórios do Tribunal Desportivo os alertas de distorção do mercado de apostas tiveram uma redução substancial após as penas severas empregadas nos últimos casos.
Regulamentação falha e lucros absurdos
Apesar da dedicação do STJD e do MP em combater a manipulação, seus esforços são como remendos em um tecido que se desfaz. Pois enquanto o mundo do esporte lida com a ameaça da manipulação, o Brasil enfrenta um desafio ainda maior: a falta de regulamentação efetiva. A legislação, que deveria ser a espinha dorsal de um mercado seguro e justo, no país se tornou uma brecha, permitindo que o universo das apostas crescesse sem o devido controle e, no caminho, causasse prejuízos financeiros e sociais incalculáveis.
A Lei 13.756/2018, foi a primeira que tratou sobre o tema no Brasil, sancionada em 2018, pelo então presidente Michel Temer, com o objetivo principal de criar uma nova fonte de arrecadação de impostos para o governo. Conhecida por “legalizar as apostas”, foi a primeira lei a criar um marco legal para as apostas de quota fixa, modalidade na qual o apostador já sabe quanto pode ganhar no momento em que joga. Permitindo assim que os jogos de azar online se tornassem uma atividade legalizada.
O governo Temer legalizou a atividade e exigiu uma regulamentação em até 2 anos pelo Ministério da Fazenda. No entanto, com a ausência de um plano de regulamentação imediato, diversas lacunas ficaram abertas, como a criação de um órgão de fiscalização, ausência de regras para publicidade e patrocínios, falta de proteção ao apostador e falta de regulamentação para o pagamento de impostos.
Isso gerou um vazio regulatório, onde o mercado de apostas floresceu de forma desordenada e sem qualquer tipo de controle. Milhares de empresas começaram a operar no país sem ter que seguir leis brasileiras, pagar impostos ou se submeter à fiscalização, mesmo patrocinando clubes de futebol e fazendo publicidade em massa.
Para evitar a tributação brasileira, essas empresas se estabeleceram em paraísos fiscais, como Curaçau, Malta e Gibraltar. A vantagem de ter empresas nesses locais é o fato do imposto sobre a receita bruta do jogo ser extremamente baixo, em alguns casos, próximo de 0%. Essa estratégia de operar no exterior, mesmo com foco no público brasileiro, foi amparada em diversos casos por liminares judiciais.
Com isso as casas de apostas conseguiam driblar a fiscalização e a carga tributária do nosso país. Assim, o dinheiro dos apostadores brasileiros entrava em reais, mas era movimentado por meio de fintechs (empresas de tecnologia financeira como: PicPay, Mercado Pago e Nubank) e intermediários de pagamento, o que dificultava o rastreamento pela Receita Federal
Na prática, esses valores eram rapidamente convertidos em dólar ou euro e transferidos para contas no exterior, onde eram contabilizados como lucro da matriz estrangeira. Assim, a arrecadação que deveria ficar no Brasil desaparecia em estruturas societárias complexas, montadas justamente para reduzir a base tributária. Uma parte desse dinheiro até retornava ao país em forma de patrocínios e publicidade agressiva, mas já sem a tributação que deveria ter sido recolhida no caminho.

Visando romper o ciclo da sonegação de imposto e regulamentar a lei de 2018, foi sancionada em 29 de dezembro de 2023, a Lei 14.790/2023, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Após cinco anos de atraso, finalmente o mercado de apostas foi regulamentado. Ela estabeleceu as regras para a operação das empresas no Brasil, definindo uma taxação sobre a receita bruta das empresas em 12% e sobre os prêmios dos apostadores em 15%.
Além de regulamentar o pagamento de impostos, a nova lei preenche algumas lacunas deixadas pela anterior, como: proíbe o patrocínio de times por empresas de apostas que não possuem licença para operar no Brasil e criou a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), órgão vinculado ao Ministério da Fazenda, responsável por fiscalizar o setor. A SPA detalha como as empresas devem operar, os requisitos para obter a licença, e como devem ser feitas as publicidades.
No dia 1º de janeiro de 2025, após um ano do sancionamento da lei, o governo deu início ao mercado regulado de apostas de quota fixa no Brasil. Desde então as empresas devem cumprir uma série de requisitos para operar no país, como a obrigação de manter os sites com o domínio “.bet.br”. Com isso, atualmente 78 empresas são autorizadas pelo Ministério da Fazenda, totalizando 182 bets.
Segundo a SPA, em relatório publicado em agosto deste ano, as empresas de apostas e de jogos online autorizadas faturaram R$ 17,4 bilhões no primeiro semestre de 2025. A secretaria também informou que os tributos coletados durantes os sete primeiros meses do ano rendera, R$ 4,73 bilhões aos cofres públicos, sendo cerca de R$ 2,6 bilhões, somente da taxação de empresas de apostas esportivas.
Como definido pelo texto da lei de 2023, 36% dos recursos arrecadados vão para o Ministério do Esporte e os comitês esportivos, 28% para o Turismo, 10% para o Ministério da Educação e apenas 1% para a saúde, uma das áreas mais afetadas pelas bets. Isso mostra como ainda há um descaso com a parte da população que sofre com o vício em apostas, como Alessandra, que nos contou sua história no início da reportagem.

O governo também informou que entre outubro de 2024 e julho de 2025, 15.463 páginas de casas de apostas não autorizadas foram retiradas do ar pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
Entretanto, se engana quem pensa que a Lei 14.790/2023 resolveu todos os problemas e acabou com a sonegação de imposto deste mercado no Brasil. A justiça brasileira ainda lida com o fato do mercado ter crescido exponencialmente durante o período de cinco anos entre as duas leis. Um exemplo é que o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa as principais empresas do setor, estima, por meio de pesquisa realizada entre abril e maio deste ano, que o mercado ilegal de apostas no país representa até 51% de toda a receita, movimentando cerca de R$ 40 bilhões por ano. Essa movimentação de dinheiro no mercado clandestino gera uma perda estimada de R$ 10,8 bilhões em arrecadação para o governo brasileiro.
Além do impacto econômico, a fragilidade da regulamentação, também pode ser vista no âmbito social, especialmente nas camadas mais vulneráveis. Dados do Banco Central do Brasil (BCB) revelam que R$ 3 bilhões foram apostados por beneficiários do Bolsa Família, por meio de Pix em agosto de 2024. Essa estatística, por si só, demonstra o quão enraizada a cultura da aposta se tornou e o risco social que a falta de uma regulação séria pode gerar, transformando a esperança de um ganho rápido em um ciclo de prejuízo e endividamento.
O cenário financeiro do país, onde 78,2% das famílias brasileiras relatam ter algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, serve como um terreno fértil para a promessa de dinheiro fácil. Por isso o desafio agora é garantir que as regras estabelecidas pela lei de 2023 sejam cumpridas, por meio de um maior poder de fiscalização e controle.
O jogo manipulado e a luta por um futuro justo
A história de Alessandra, o que a ciência explica sobre o vício, a trajetória de manipulação no futebol, os esforços da justiça desportiva e a falha gritante na regulamentação. Todos esses fios se entrelaçam para pintar um quadro complexo e, ao mesmo tempo, alarmante. Mostra como o futebol, paixão nacional e espelho da sociedade, está agora em um jogo onde as regras não são claras. O ecossistema se tornou refém de um mercado bilionário, onde o lucro das empresas de apostas prospera sobre a vulnerabilidade de milhares de pessoas, enquanto o Estado, o esporte e a sociedade pagam o preço.
O trabalho do STJD e do Estado, muitas vezes, parece apenas correr atrás do prejuízo, e não em construir uma defesa sólida para o futebol e sociedade. As regras, que em ambas as instituições, como mostrado durante a reportagem, estão muito atrasadas comparadas ao avanço do universo das apostas, são aplicadas somente quando os crimes já foram cometidos e não para evitar que vidas sejam arruinadas.
A manipulação dos jogos e o vício de milhões de brasileiros, nos últimos anos, se tornaram uma consequência aceitável de uma indústria que gera bilhões, e em sua maioria sonega impostos, que poderiam ser usados para a saúde pública e prevenção de vícios ocasionado pelo próprio mercado.
O que “Tudo ou Nada” nos revela é que o maior desafio do futebol brasileiro não está em campo, mas fora das quatro linhas. Não se trata mais de qual time tem o maior e melhor patrocínio, qual jogador está sendo patrocinado por qual marca, mas de como as casas de apostas se aproveitaram de uma paixão nacional para transformá-lo em símbolo de um vício. A questão não é se uma aposta é ou não entretenimento, mas sim o seu custo humano, social e esportivo.
Diante desse cenário, ficar parado e calado não é mais uma opção. É essencial que a sociedade reconheça que o jogo manipulado não acontece apenas dentro dos gramados, mas na vida das pessoas. O país tem a necessidade de uma regulamentação e uma fiscalização mais rígida, com regras claras que protejam os mais vulneráveis e que responsabilizem as plataformas. A conscientização sobre os riscos, o vício e a falta de transparência deve se tornar uma prioridade nacional. Romper com esse ciclo de exploração exige um esforço coletivo: do governo, dos clubes, dos atletas e de cada torcedor.
A resposta para esse problema já começou a surgir em alguns projetos concretos. No Congresso, o debate já teve início, um exemplo é o Projeto de Lei (PL) 1296/2025, que mira a publicidade invasiva. A proposta busca impor limites, proibindo que marcas de apostas sejam expostas em uniformes de times e em eventos esportivos acessíveis a menores. É uma tentativa de tirar as bets do centro do futebol, exigindo ainda que toda propaganda carregue um aviso nítido: “jogo pode causar dependência”. É uma iniciativa para desmontar a imagem de “renda extra” vendida pela indústria e proteger o público jovem, que é mais suscetível ao vício.
O custo humano do jogo, ilustrado pela história de Alessandra, também está sendo enfrentado, por meio de uma proposta de saúde pública. A Lei 14.790/2023, que regulamentou o mercado, determinou que uma fatia do imposto arrecadado com as apostas seja obrigatoriamente destinada ao Ministério da Saúde. Essa verba, que deveria ser maior, é o que está financiando programas de prevenção e tratamento à ludopatia no SUS. Além disso, a regulamentação exige que as plataformas ofereçam ferramentas de autoexclusão de fácil acesso, dando ao apostador vulnerável a chance de se proteger.
Esse movimento por responsabilidade se espalha para além do âmbito federal. Em Belo Horizonte, o PL Municipal 332/2025 se tornou um dos primeiros a criar uma política de saúde mental específica para a ludopatia. A iniciativa abre um caminho fundamental para que o enfrentamento do vício não dependa apenas do Governo Federal, garantindo ações educativas e programas de tratamento localizados. É uma demonstração de que a luta pelo esporte íntegro e pela saúde dos cidadãos deve ser feita em todas as esferas.
A pergunta que a reportagem deixa para vocês é: até quando a sociedade brasileira permitirá que o futebol, uma das nossas maiores paixões, seja corrompido por um sistema que enriquece poucos à custa do sofrimento de muitos? Qual será a nossa responsabilidade diante de uma indústria que lucra com o vício e com a ruína alheia? E o que faremos para garantir que o jogo volte a ser um espaço de integridade, alegria e competição leal, e não um campo para a ganância e a manipulação?
A equipe do Fora das Quatro Linhas entrou em contato, por e-mail, com cinco casas de apostas – Betano, KTO, Esportes da Sorte, Betfair e Bet Nacional – para ouvir suas posições sobre os temas abordados nesta reportagem. Todavia, até o momento da publicação, não houve retorno.


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